Projeto Estação Tupã nasceu no Ensino Médio, ganhou força com a parceria com a UFS e já conquistou reconhecimento em feiras científicas nacionais e internacionais
Toda transformação começa com uma pergunta. Para a estudante Alice Ferreira da Mota Costa, da 3º Série do Master, a pergunta surgiu a partir de uma experiência próxima: uma amiga adoeceu depois de ter contato com água de alagamento. A situação despertou uma inquietação que foi além da preocupação pessoal. Alice quis entender o problema, investigar suas causas e descobrir de que forma poderia contribuir para enfrentá-lo.
Foi assim que começou o Estação Tupã, projeto desenvolvido por estudantes do Master que une Robótica, Geografia e Ciência de Dados para estudar a relação entre os eventos meteorológicos e os alagamentos em Aracaju.
O que nasceu como uma ideia de uma aluna ganhou forma com o apoio de professores, cresceu com a participação de outros estudantes e encontrou na Universidade Federal de Sergipe (UFS) novos caminhos para aprofundar a pesquisa. “Você convive com a pessoa, se importa com ela, e isso fez eu parar para refletir e perceber que também tive vários momentos da minha vida em que os alagamentos estão presentes. Praticamente todo ano alaga a cidade toda. Eu moro na 13 de Julho, então sei muito bem como fica a situação do canal por causa da água. Parei para refletir que realmente é um problema que me afeta muito e comecei a pesquisar mais sobre ele, para entender e saber como resolver”, conta Alice.
A história do Estação Tupã traduz uma das possibilidades mais potentes da educação: quando o estudante deixa de apenas receber conhecimento e passa a produzi-lo a partir da realidade que observa.
Da inquietação à iniciativa.
Quando Alice procurou o professor de Geografia Gil Vieira, ela já tinha desenvolvido um protótipo de estação meteorológica. O que poderia ser apenas uma ideia de uma estudante ganhou, a partir daquele encontro, espaço para se transformar em um projeto científico. “Eu confesso que foi com muita surpresa. De repente, encontramos uma aluna com uma ideia espetacular, maravilhosa e de grande impacto social para resolver um grave problema urbano que o país tem e que Aracaju tem, que são os alagamentos”, lembra o professor.
Gil buscou então a professora Jaci Souza, que passou a acompanhar o projeto, incentivar os estudantes e ajudá-los a aprofundar a pesquisa. O estudante Joaquim , que já tinha experiência com robótica e participação em feiras científicas, também se juntou a Alice.
A partir daí, o Estação Tupã passou a reunir diferentes conhecimentos em torno de uma mesma pergunta: como utilizar a tecnologia e a ciência para compreender melhor um problema que afeta a vida das pessoas?
Para Joaquim, a identificação com o tema também veio da experiência pessoal.
“Eu sempre sofri também com alagamentos. Ia para a escola, moro no Aruana, então é bem longe, e já vi a água batendo na porta do carro. É um problema que todo mundo sofre todo ano. Misturar o conhecimento geográfico com a robótica para desenvolver estações e fazer uma análise de dados é algo que tenho muito interesse, até de continuar na faculdade”, explica.
Com o avanço da pesquisa, os estudantes perceberam que precisavam aprofundar a parte de tratamento, sistematização e análise dos dados. Foi nesse momento que o projeto encontrou a Liga Acadêmica de Ciência de Dados (LaData), da UFS.
A parceria aproximou estudantes do ensino médio e universitários em um processo de aprendizagem que aconteceu nos dois sentidos.
Para Cauã Teixeira Machado, estudante do 8º período de Engenharia de Computação e conselheiro da LaData, a iniciativa também representa a oportunidade de colocar em prática conhecimentos adquiridos na universidade. “A essência da pessoa que trabalha com computação é resolver problemas. É muito além do que os filmes mostram. A essência do estudante e do trabalhador da área de computação é resolver problemas”, afirma.
A equipe da LaData passou a trabalhar com duas frentes principais: web scraping, utilizado para coletar e organizar automaticamente informações de sites de notícias, e análise de dados.
O estudante Yami Nascimento Rodrigues, do 8º período de Sistemas de Informação, explica que a equipe utiliza notícias sobre ocorrências de alagamentos e dados meteorológicos do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) para buscar possíveis relações entre os volumes de chuva e os registros de alagamentos na capital.
Os dados meteorológicos utilizados abrangem o período de 2016 a 2025. Um dos desafios encontrados durante a pesquisa foi justamente a disponibilidade de informações suficientemente detalhadas por região da cidade. A intenção, a partir do aprofundamento dos estudos, é construir uma base que possa contribuir futuramente para um sistema capaz de identificar padrões e compreender, por exemplo, quais condições de chuva estão associadas a ocorrências de alagamento em determinadas áreas. “Quando a gente foi avançando nessa análise, viu que não conseguia cruzar muito bem esses dados. Se conseguíssemos, teríamos, no final, o esqueleto de um sistema preditivo para entender quantos milímetros de chuva são necessários em determinado bairro para termos um alagamento”, explica Yami.
A pesquisa considera ainda que fatores como maré, drenagem urbana e características do território também podem interferir nas ocorrências. Por isso, o trabalho segue em desenvolvimento e busca ampliar progressivamente a compreensão do fenômeno.
Para os estudantes da LaData, a parceria também se tornou uma oportunidade de aprendizado. O projeto foi incorporado ao LapDados, iniciativa interna da liga voltada à formação dos seus integrantes. Com isso, os próprios estudantes universitários passaram a compartilhar conhecimentos e, ao mesmo tempo, aprender durante o desenvolvimento do Estação Tupã. “Pegamos o projeto, com a permissão de Joaquim e Alice, e conseguimos ensinar aos nossos ligantes como fazer web scraping e análise de dados. Toda essa mão de obra foi necessária para conseguirmos construir o projeto. Cada análise, cada dado e cada gráfico realizado foi feito por nós”, explica Clarice Lopes, vice-presidente da LaData e estudante de Ciência da Computação.
Clarice também é ex-aluna do Master. Para ela, participar da iniciativa representou uma oportunidade de reencontro com a escola onde sua própria trajetória acadêmica começou.
“Quando eu estava no ensino médio, sempre tinha aquela vontade de conhecer o mundo de verdade, de estudar de verdade. Quando você chega à universidade e percebe que algo não está na sua grade, mas que você também quer aprender, você vai atrás. É isso que expande e desenvolve a pessoa e também o coletivo”, afirma.
A experiência sintetiza uma relação que ultrapassa a ideia de uma parceria institucional. O conhecimento produzido em uma etapa da formação passa a alimentar a etapa seguinte, criando um ciclo de aprendizado.
O Estação Tupã também já começou a colher frutos dessa trajetória.
O projeto participou de diferentes feiras científicas e conquistou reconhecimentos ao longo do processo. Entre eles estão uma premiação de primeiro lugar na MOSCLING e a participação na Mostratec, no Rio Grande do Sul.
Mais recentemente, na FECONART, o projeto conquistou novamente o primeiro lugar, sendo reconhecido como o melhor projeto da feira, com 197 pontos de um total de 200. A conquista também garantiu credenciamentos para eventos científicos no México, Peru e Santiago.
Para a professora Jaci Souza, os resultados são consequência de um processo construído desde o primeiro momento. “De cara já vi o potencial do projeto. Continuei incentivando os meninos e indo em busca de grandes resultados, para que estudassem mais, aprofundassem mais e participassem de grandes feiras científicas”, afirma.
Mais do que os troféus e certificados, porém, existe um resultado que não cabe em uma premiação: a compreensão, por parte dos estudantes, de que o conhecimento pode ser utilizado para olhar para a própria cidade e pensar em formas de transformá-la.
Na avaliação de Francisco Almir, estudante do 10º período de Ciência da Computação, a experiência também mostra como a universidade pode ampliar sua conexão com os problemas existentes fora de seus muros.
“Para as pessoas perceberem de fato como a tecnologia afeta suas vidas, é preciso que haja atuação de cientistas de dados, engenheiros de software e outros profissionais que produzam soluções que afetem a vida de pessoas que estão completamente distantes da faculdade”, afirma.
O Estação Tupã ainda está em desenvolvimento. O objetivo não é apresentar uma resposta definitiva para os alagamentos de Aracaju, mas avançar na compreensão do fenômeno por meio do cruzamento de dados meteorológicos e registros de ocorrências, construindo conhecimento que possa, futuramente, contribuir para ferramentas de identificação e prevenção de situações de risco.
No caminho, uma estudante que decidiu não ignorar um problema que fazia parte de sua realidade encontrou professores dispostos a ouvir, colegas dispostos a construir e uma universidade disposta a compartilhar conhecimento.
Porque educação que transforma não termina quando a aula acaba. Ela começa quando aquilo que se aprende passa a fazer sentido para o mundo.











